Wok

Quando minha namorada disse que devíamos comprar panelas numa loja de nome francês dentro de um shopping imenso, eu fui enfático:

– Nananinanão. Nem a pau. Deve ser caro.

Na verdade eu disse isso pra mim mesmo. E lá fomos.

Achamos uma wok numa promoção fantástica. Eu nem sabia que aquela panela tinha nome de bichinho do filme… ah não, é ewok, o bichinho.

É a melhor panela que já vi. Faz tudo rápido e gostoso. Fácil de limpar. Tem ganchinho na ponta pra pendurar na prateleira.

Moral da história. Às vezes eu não tenho razão. Só às vezes.

Funda mental

Não é o islã o budismo ou o batismo.

Nem o positivismo ou o inatismo.

Não é o palmeiras o santos ou o bahia.

Nem o comunista ou o consumista.

É o fanatismo.

Sentimento de posse

Um orangotango foi libertado pelo juiz. Primeiro animal não humano a ter direito à liberdade. Legal. Mudança de paradigma à vista.
Orangotango tem a sorte de ser tímido, inteligente e ter a carne dura. Quase um homem bom.

E agora, vamos libertar quem mais? Sugiro todos de zoológicos, pra começar. Depois os de laboratório. Por fim, os domésticos e comestíveis: cachorros, bois, porcos, pássaros. Claro que precisaríamos fazer alguma engenharia genética para que eles reevoluíssem e voltassem a ser selvagens e donos de si. Com um gigantesco pedido de desculpas por terem sido tratados como nossa propriedade por tanto tempo.

Em casa esperando

Eu tento viver a vida, mas ela me devora.
Eu quero ter razão, mas não agora.
Vai, tenta outra coisa.
Tenta ver a luz que ilumina a forma.
Vai tocar rabeca o pandeiro e a zabumba,
Vai dançar forró, é o pau na tumba.

Dig dig dig

Por que eu respeito o Marcelo D2? Por vários motivos. Quando eu tinha uns 18 anos, eu fiquei chocado ao ouvir uma banda diferente de tudo que tava rolando. Nenhuma emissora tinha coragem de mostrar um vídeo dos caras, a não ser a MTV. Eles se vestiam do que eu e meus amigos de classe média chamávamos com desprezo de “maloqueiros”. D2 cantava com uma voz agressiva, rasgada, misturando rap com rock, falando abertamente sobre legalização da maconha, violência, corrupção policial. Eu pensei “caramba, como esse cara não é preso?!”.

O som era foda, riffs simples com aquelas notas que sempre funcionam, batida que faz a gente balançar a cabeça, e o resto era por conta dos versos metralhados com talento e fúria, por quem tinha algo muito sério a dizer sobre a vida na periferia. Os programas de domingo não mostravam, mas uma multidão de gente da minha idade sabia as letras na ponta da língua.

Não sei se os argumentos nas letras do Planet Hemp são perfeitos. Uma erva natural pode sim te prejudicar. Não sei se a legalização resolve o problema dos dependentes mais graves. Talvez melhore a condição deles porque é bem melhor ser visto como questão de saúde pública do que como caso de polícia. Com certeza, deve melhorar a vida do usuário ocasional, que no caso da maconha deve representar uns, vamos chutar, 80% da galera que é fã da erva. Como diz o José Simão da Folha, o maior mal que a maconha causa é quando a polícia chega. Sou a favor da legalização principalmente porque deve diminuir a violência e a corrupção causadas pelo tráfico.

Só sei que o D2 me mostrou que é possível falar abertamente do tabu (eu não gosto de tabus – alguns tem razão de ser, outros são bestas). Que há maneiras alternativas de pensar além da dos seus pais e dos jornais. Que o certo e o errado estabelecidos socialmente podem ser uma grande ilusão. Pensar por si mesmo é uma virtude rara.

http://youtu.be/JpmAFfd1I7I

Pêndulo

Gosto de descer o pau em indústrias como a farmacêutica, por exemplo, que lucra com nossas doenças e as prescrições automatizadas dos médicos (“toma esse remedinho aqui que você melhora”). Mas às vezes, acho que acaba sendo um mal necessário.

Doenças ainda vão existir por muito tempo. Se a nossa espécie está andando pelo mundo hoje, é por que sobreviveu a uma corrida armamentista evolutiva contra os verdadeiros donos do planeta, os organismos unicelulares. As bactérias devem ter nos deixado viver porque consideram nossos intestinos um bom lugar para morar. O chato é que tem sempre aquelas sem noção que não percebem que, se forem com muita sede ao pote, acabam destruindo o lugar onde vivem. Opa! Parece uma espécie muito familiar.

Em todo caso, pesquisa e desenvolvimento nessa área é ótimo. E os laboratórios são bons nisso. Pena que os benefícios dessa indústria sejam um subproduto da verdadeira motivação dela e de qualquer empreitada da iniciativa privada, o lucro. Imagine que um laboratótio tenha a opção de lançar dois remédios contra a ação de uma bactéria, os remédios A e B. Nos testes patogênicos, o remédio B foi um pouco mais eficiente. No entanto, uma pesquisa de mercado mostra que A seria bem mais rentável. Qual remédio tem mais chances de ser lançado?

Veja bem, são duas atividades distintas. Uma, lucrar fazendo remédios, é a essência. Outra, “curar” as pessoas, a consequência. Sem a primeira, a indústria privada deixaria de existir. Sem a segunda, não necessariamente. O dia em que entendermos (nós, os leigos) como a maioria das doenças funcionam e remédios deixarem de serem lucrativos, a indústria vai migrar para outro mercado, como cosméticos, por exemplo.

O problema parece ser de prioridades. Em Cuba, dizem que o sistema de fabricar remédios somente sob demanda do estado funciona. Não sei. Às vezes, dá vontade de viver numa ilha também.

Não sei se o benefício que a indústria privada de remédios me traz como efeito secundário da mentalidade capitalista dela é maior do que o benefício que uma possível indústria estatal traria, indústria cuja prioridade seria, teoricamente, fabricar remédios para melhorar a saúde da população, tendo o lucro funcionando apenas como oxigênio financeiro. No Brasil, desconfio que é uma realidade distante. Talvez um projeto de longo prazo.

Como bom simpatizante de esquerda, eu sonho com esta última opção. Mas também sou meio cético quanto às motivações humanas. Eu, por exemplo, sou como o dr. House. Minha motivação primária é o mistério, e não as pessoas. Questões humanitárias, como a miséria na África e a guerra na Síria, me incomodam de verdade. Mas eu, no máximo, assino uma petição online para ajudar. O que realmente me faz acordar e pesquisar todos os dias são questões platônicas, do tipo por que os humanos falam?

Se um dia eu morrer de uma bactéria assassina, não vou reclamar. Nem poderia.

 

Separação

 Em janeiro de 2037, o movimento separatista O Rio Grande É Meu País De Verdade finalmente conseguiu convencer o resto do Brasil de que os gaúchos mereciam um país próprio, e foi criada, através de um acordo político suspeito barbaridade, o que não vem diretamente ao caso, mas enfim, finalmente foi criada a tão sonhada República Rio-Grandense.

Assim, o Brasil perdeu sua fronteira com o Uruguai e os shows dos Tchê Garotos viraram atração internacional.

Houve muitos protestos, acusações de xenofobia e ultranacionalismo, mas os gaúchos conseguiram se sair bem com o argumento de que, na verdade, não aguentavam mais ser governados por Brasília, o que fez todo mundo coçar a cabeça e pensar “É…”. O fato de que todos os nordestinos locais foram os primeiros a serem convidados a tirar passaporte como estrangeiros, seguidos dos paulistas e cariocas, acabou passando batido.

Pues, logo foi marcada uma visita de estado, e o primeiro primeiro-ministro gaúcho, João Brizola Vargas Neto recebeu a presidente brasileira Sasha Meneghel no novíssimo Palácio da Tradição Rio-Grandense. Entre uma cuia de chimarrão e outra, seriam discutidos os novos acordos políticos e econômicos entre “as duas grandes potências da América do Sul”, nas palavras do primeiro-ministro gaúcho.

– Senhora presidenta Meneghel, seja bem-vinda, a senhora que também deve ter orgulho do sangue rio-grandense que corre em suas veias. É com grande satisfação que lhe mostro o nosso plano de amizade internacional…

– Amizade? – retorquiu a presidente brasileira com secura.

O primeiro-ministro gaúcho coçou o bigode, apreensivo.

– Ora, somos nações amigas, não somos?

– Senhor Vargas, se bem me lembro, foram vocês que quiseram se separar, não foram? Amigos que se separam deixam de ser amigos.

– Senhora presidenta, não vamos nos ater aos sentimentos e mágoas do movimento separatista. Eu reconheço também que chantegear a senhora com filmes eróticos de sua mãe foi um golpe baixo. Mas veja bem, somos homens de estado, digo, pessoas de estado. E ambos precisamos exportar e importar…

– Foi bom o senhor ter mencionado isso. Nossa equipe econômica já estabeleceu as alíquotas especiais de importação para seu país. Automóveis, 35%. Eletrônicos, 45%…

– Eletrônicos? Mas vem tudo do Paraguai!!

– Pois é. E quem tem fronteira com o Paraguai? Hã? Quem tem a ponte da amizade?

– Que absurdo. Vamos ter que negociar com os argentinos – suspirou desolado o primeiro-ministro.

– Soja, 30%.

– Soja! Mas foram os gaúchos que plantaram toda a soja que vocês têm!

– Exatamente, soja plantada no Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, certo? Quer que eu mostre um mapa para o senhor?

– Barbaridade!

– É claro, os plantadores de soja agora precisam ser regularizados na imigração, o que também terá um custo. Mas o senhor não se preocupe, nós vamos arcar, já que nosso PIB é 40 vezes maior que o seu. E falando em imigração, haverá também um limite do número de passaportes rio-grandenses em nosso país. E estamos incluindo aí o verão nas praias de Santa Catarina…

Balanço

 

Ja destilei meu ressentimento com o mundo de todas as formas possíveis na internet.

Resultado:

Os liberais continuam liberais. Os conservadores continuam conservadores.

Os petistas continuam defendendo o PT. Os tucanos continuam tucanos.

Os descrentes continuam descrentes. Os religiosos continuam religiosos (um ou outro trocou de crença).

Os vegetarianos continuam provocando os carnívoros. Os carnívoros continuam provocando os vegetarianos com piadas de bacon.

As feministas continuam bravas com os machistas. Os machistas continuam sem entender nada.

E a catarse?

Não sei, tô com um certo mal-estar no estômago.

Perguntinha malandra

Caramba. Nem sei se a leitura de Brasil do entrevistador e do entrevistado são boas, mas esta afirmação foi incômoda: a civilização entristece o homem. Será?